Estas são algumas paisagens tiradas na França, ao longo do segundo semestre de 2010.
Retratos franceses
A fotografia humanista surge na França, por volta de 1930, e durante algumas décadas faz do provo de Paris o seu assunto predileto. Roberto Doisneau e Henri Cartier-Bresson foram seus principais expoentes. Sebastião Salgado talvez seja o último grande fotografo humanista.
Sendo a França o berço desse tipo de fotografia, o povo francês, em geral, tem um grande apreço por essa forma de arte – em especial, pelo retrato. Lá a imagem do fotógrafo como alguém “invasivo” é deixada de lado e lhe é dado a oportunidade de flanar pela cidade, tirando fotos sem perturbar ou ser perturbado.
Estes são alguns retratos tirados na França, ao longo do segundo semestre de 2010.
Laguna – onde o tempo passa, mas não passa
Desde criança, sempre que posso, passo alguns dias do verão em Laguna (Santa Catarina). Esse retorno, quase que anual, me permite determinar a exata medida em que me afasto de onde cresci e o quão próximo ainda estou das minhas raízes. Lá tenho um estranho sentimento: o tempo passa, mas não passa.
Uma grande mudança que me mostra que o tempo passou é que os amigos que dividiram a infância comigo hoje passeiam com seus filhos. Os adultos da minha infância hoje estão idosos e muitos dos idosos não mais lá.
Mas por outro lado, o tempo não parece ter passado. A cidade – com suas mazelas e pobre infra-estrutura – continua praticamente a mesma.
Esta foto foi tirada na semana passada, mas poderia muito bem ter sido tirada no final da década de oitenta. O fusca, a senhora, a moto velha, o chão batido dos molhes, são o tipo de coisas que, para mim, sempre estiveram lá.
(Apenas adicionei um pouco textura, magenta e ciano à imagem digital (que é sempre pobre em textura – ou melhor, ela é, por excelência, a ausência de textura). Agora ela se parece com uma foto feito com filme Kodak e com máquina Pentax (que são fotos com muito mais charme que as digitais – diga-se de passagem)).
Outro indício de que o tempo passou (e que seu correr é irreversível) foi o decréscimo na vida marinha da região. Quando criança, era impossível passear pela praia ou entrar no mar sem se deparar com inúmeros siris. Os siris estavam por toda parte e não era raro se machucar ao pisar, dentro d’água, sobre um siri e ser mordiscado por sua potente garra. Mas hoje em dia eles são raridade e os que ainda podemos encontrar são minúsculos perto dos que lá existiam.
Felizmente, os botos ainda estão por lá. Essa ainda presença talvez possa ser explicada pelo fato dos pescadores da região trabalharem juntamente com os botos.
Como mencionei em um post anterior (“O homem e o boto” ), há uma protocooperação entre pescador e boto. O boto traz os peixes para a margem e os pescadores os protegem.
Outra diferença que pude notar nesta última visita a Laguna (e que me deixou muito feliz) foi o aumento no número de pássaros. Nunca havia visto lá tantos pássaros e de tão diferentes tipos. Não sei a razão desse feliz aumento (e caso você leitor saiba a razão, por favor, deixe no final deste post as suas palavras).Passei muitas horas perseguindo-os, nos últimos dias.
A presença soberana do Rio Amazonas
Em Macapá, a dimensão oceânica do Rio Amazonas torna as suas margens uma orla, de aspecto praiano.
As pessoas lá passeiam no fim de tarde como se andassem pela beira mar.
E quando a maré baixa, as centenas de metros de terra assemelham-se à escura areia de um mar sem ondas.
Tudo é regido pelas marés – até mesmo a anatomia dos barcos (que recebem um fundo chato, para que possam assentar no chão da maré baixa). E lá ficam como se fossem casas, para se tornarem novamente barcos na maré alta.
O aspecto praiano não está apenas presente na geografia da cidade, mas também no povo, que em dezembro já se entregava ao carnaval.
A importância do Rio Amazonas também se faz visível na grande Fortaleza de São José de Macapá, cujo objetivo era guardar as suas águas.
De tão grande, não podemos dizer que o Rio Amazonas “corta” a cidade de Macapá, mas que a “banha”, tal qual um mar.
O Boto Cor-de-Rosa no Rio Amazonas
Saímos em uma comitiva de mais de 50 professores da Universidade Federal de Goiás, rumo a Macapá. Participamos na organização de um grande concurso na Universidade Estadual do Amapá. Juntamente com os professores Cristiano Rezende e Anderson Borges, fiz parte da banca de filosofia, tendo em vista o preenchimento de quatro vagas naquela instituição.
Ficamos em Macapá quase uma semana e conhecemos um pouco a região.
A vida na cidade de Macapá, assim como em toda região, é fortemente influenciada pelo Rio Amazonas e seus afluentes. Macapá é a única capital no Brasil que não possui ligação via rodovia com outras capitais. Assim, o rio se torna a principal porta de entrada e saída da cidade (como, por exemplo, para a exportação do açaí, colhido na região – que embalado em sacos vermelhos pode ser visto por toda a cidade).
Pudemos notar como a vida dos ribeirinhos se constrói sobre as palafitas, em um dos afluentes do Rio Amazonas, nos arredores de Macapá.
Essas fotos foram tiradas no final do período seco. É possível notar a altura das casas em relação à margem do rio. Nos próximos meses, com o início do período da chuva, toda esse vão será preenchido pelas águas do Amazonas.
Lá o barco se torna o principal meio de transporte.
Até mesmo os postos de gasolina são fluviais.
Assim como o transporte escolar.
E a vida segue calmamente nos barcos e nas beiradas de rio.
No final desse passeio, em um dos afluentes do Rio Amazonas, fomos agraciados pela visão de um Boto Cor-de-Rosa.
Em vinte minutos, a Europa estará sob seus pés
Há coisas e eventos que rompem a barreira da normalidade e os denominamos de “extra-ordinários”. Mas há diferentes níveis pelos quais uma coisa pode ser extra-ordinária. Existem eventos raros, que, no dia-a-dia, não lembramos que podem acontecer e, quando acontecem, somos tomados de surpresa. Todavia, nesse caso, sabíamos que tais coisas eram possíveis, porém raras. Mais há um outro nível, muito além deste, que é a ocorrência de algo que desafia os limites do quadro de referência que temos da realidade e nos leva a vivenciar algo que não sabíamos que era possível. Certamente não falo aqui das impossibilidades lógicas (do famoso “círculo quadrado”), mas daquelas coisas que, dado o grau de dificuldade, sequer cogitamos que seriam possíveis de acontecer agora.
Você já imaginou que existisse um teleférico que sobe, em poucos minutos, uma altura de 2.800 metros? Ou seja: uma espécie de elevador que poderia subir quase 3 quilômetros? Não!? Nem eu. Mas é isso que podemos encontrar na cidade de Chamonix, nos Alpes Franceses.
A cidade de Chamonix está 1.035 metros do nível do mar e o teleférico “Aiguille du Midi” sobe, em 20 minutos, até uma altura de 3.842 metros. De lá é possível contemplar o Mont Blanc – que é a montanha mais alta da Europa ocidental, com 4.810 metros.
O teleférico tem capacidade para 60 pessoas e dois estágios. O primeiro parte da cidade de Chamonix e vai até um pequeno platô, nos pés da montanha onde fica o pico “Aiguille du Midi”. Dali é necessário pegar um outro teleférico, que leva ao topo da montanha – subindo quase que verticalmente, mais de dois mil e oitocentos metros (sendo a maior ascensão vertical por cabo do mundo).
Infelizmente, de todos os dias belos e claros do mundo, o dia que subi ao topo do “Aiguille du Midi” não era um desses. Visto que as nuvens encobriam o céu e estávamos na altura das nuvens, havia pouco a ser visto, salvo nos momentos que o fortíssimo vento aclarava o horizonte.
A subida do segundo estágio dura uns poucos minutos e, rapidamente, é possível sentir o ar tornando-se rarefeito. No topo, subir as escadas de acesso aos diferentes mirantes requer um bom preparo físico e, após uma caminhada mais rápida, é possível sentir a freqüência cardíaca aumentar drasticamente. Pessoas com problemas do coração e crianças são proibidos de subir no “Aiguille du Midi”.
O que é mais espantoso é deparar-se com a bela arquitetura das construções que ficam no topo. É realmente incrível que tudo isso tenha sido construído no centro da rocha dura, que forma a montanha.
Mas algumas das pessoas que sobem o teleférico, não estão a passeio. São alpinistas que pretendem descer parte da montanha a pé, ou se aventurar na direção do Mont Blanc.
A passagem pela qual acessam a montanha é um longo corredor de gelo, cujo fim, revela uma certa austeridade: depois desse ponto a sua vida está em risco.
Como eu não tinha equipamento para caminhar no gelo (umas garras de aço que são amarradas nas botas), não pude ir até o final do corredor. Resolvi, então, dar a volta no prédio para tentar ver essa saída por um outro lado. Porém, o tempo estava tão ruim que tudo que pude ver foi a imagem desolada de um ambiente que me fez constatar como é incrível a coragem necessária aos alpinistas.
A temperatura certamente estava muitos graus abaixo de zero e o fortíssimo vento (que assoviava em grande volume) deixava a sensação térmica ainda menor. Bastava uns poucos segundos fotografando sem as luvas (pois com elas não é possível operar satisfatoriamente a máquina) para a mão ficar completamente adormecida pelo frio. Trocar o filme da máquina nessas condições (embora use equipamento digital, sempre carrego comigo também uma máquina analógica) tornava-se uma tarefa dificílima.
No trajeto de volta pude ver uma construção que fica na encosta da montanha – que deve servir como acampamento aos alpinistas. Só pude imaginar o prazer que deve ser lá chegar, depois de caminhar por horas no perigo e no frio extremo da montanha.
E ela não parou
A neve (mencionada na post anterior) não parou de cair durante a noite toda. A temperatura chegou à -7ºC e, quando amanheceu, a cidade estava coberta por uma grossa camada de neve (que, em alguns lugares, passava de 40 cm).
Os carros pareciam transitar como se carregassem grandes colchões brancos nos capôs.
Os carros que ainda estavam parados ficavam escondidos, quase irreconhecíveis, assim como as bicicletas.
O parque central, que no verão é coberto por uma verde relva, estava completamente branco.
Até mesmo o lago do parque e um pequeno rio que lá corre estavam cobertos de neve.
Os caminhos transitáveis do parque eram abertos por pequenos tratores.
A previsão para o fim de semana não é das mais animadoras. Na região, a temperatura mínima chegará à -12ºC e a máxima será por volta de -1ºC. E a neve voltará.
E tudo ficou branco
Caros amigos,
Desculpem-me pela falta de atualizações. No momento estou terminando de escrever a tese de doutorado. Prometo que em alguns dias as coisas voltarão ao normal.
Mas, para que vocês tenham uma idéia de como as coisas estão aqui, estou postando algumas fotos de ontem. É a primeira onda de frio na França, neste outono (com três semanas de antecedência – em relação aos outros anos). Ontem a temperatura aqui chegou à -7º. Hoje, várias regiões estão em alerta vermelho 3 (que é parte de uma escala que vai de 1 à 4, representando a quantidade de neve que deve cair – sendo 1, pouca neve, e 4, muita neve). Aqui será apenas alerta laranja 2.
Aos pés do Mont Blanc
Quando pensamos na Europa, imaginamos normalmente as paisagens mediterrâneas, ou os vinhedos franceses, com seus châteaux e grandes castelos – sempre emoldurados por um clima brando e por belos fins de tarde. Raramente pensamos na Europa como um lugar de condições climáticas adversas e de fortes intempéries.
Pude notar como o clima aqui pode ser difícil e ameaçador ao cruzar as montanhas que separam a Suíça da França, na região dos Alpes, perto do Mont Blanc (ponto mais alto da União Européia com 4.800 metros). No final do trecho de subida da serra que vai de Martigny (na Suíça) para Chamonix (França), fomos surpreendidos por uma forte neve que caia na região. Era início de noite e trafegávamos em montanhas com mais de 1.400 metros de altitude. O grande medo era o gradual congelamento da pista, que poderia causar a derrapagem do carro. Se isso acontecesse, estaríamos em maus lençóis, pois, na melhor das hipóteses, ficaríamos presos na neve, ao cair da noite, com temperaturas negativas, em uma região distante das cidades e, na pior das hipóteses, despencaríamos morro abaixo. Mas, independentemente da tensão e do medo, essa situação me deu a oportunidade para algumas boas fotos.
A neve começou a ficar realmente forte na descida da serra.
Nesse trecho, tivemos a sorte de encontrar alguns carros que desciam a serra e só aí pudemos notar como estávamos andando de forma excessivamente rápida para aquela situação. A solução adotada foi seguir atentamente esses carros (em uma velocidade média entre 10 e 15 Km/h), colocando nossas rodas nas trilhas deixadas por eles (e, assim, evitando trafegar sobre a neve). A má notícia é que estávamos em uma altitude de 1.300 metros e ainda teríamos um longo trecho de descida até chegar à cidade de Chamonix, que fica em uma altura de 1.000 metros. Isso significava que teríamos pela frente muitas curvas, em decida, nas quais o risco de derrapagem aumenta.
O clima estava tão ruim que não havia guardas na fronteira e entramos na França sem que nossos passaportes fossem checados. E mesmo em Chamonix, a neve caia fortemente.
Ao passar Chamonix, a neve foi se tornando chuva e pudemos chegar em Annecy (na França) com segurança.
E o rato era eu
Saímos em direção à estação de trem com mais de uma hora de antecedência. Com a greve parcial nos transportes públicos, não sabíamos se o trem que pegaríamos para Paris seria cancelado. A greve era parte da resposta popular à reforma na previdência (que seria votada pelo senado na semana seguinte). Nossa intenção (minha e de minha esposa) era encontrar os meus pais e a minha irmã em Paris; que viriam do Brasil para passar alguns dias na França. Junto com eles estariam também a minha sobrinha, de um ano e meio, e o meu cunhado. Mas não podia haver, nos últimos tempos, pior momento para se chegar à França (especialmente em Paris). Com as passagens já compradas, férias tiradas e reservas feitas, cancelar a viagem estava ainda fora de cogitação. O trem que pegaríamos para Paris, com escala em Lyon, foi cancelado, mais conseguimos lugar em um outro trem (que partiu lotado) e chegamos ao nosso destino no início da tarde.
Paris é uma cidade que sofre de seu próprio veneno. Por ser a cidade mais visitada do mundo, turistas constantemente se engalfinham nos principais pontos turísticos.
Isso torna qualquer passeio uma desesperada corrida para posar para fotos, por uma fração de segundo, na frente do objeto de desejo.
Após um dia de passeio eu já estava me sentido claustrofóbico em Paris e ansiando pela vastidão do vale de Grenoble.
Vimos o primeiro sinal de que as coisas poderiam ir de mal a pior quando fomos à estação de trem em Paris, comprar os tíquetes para Grenoble. A estação estava lotada e todos pareciam preocupados, como se vivêssemos em um período de enormes incertezas. Nossas suspeitas de que as coisas não iam bem foram confirmadas quando a senhora que estava na nossa frente na fila para comprar passagens caiu em prantos, após falar com o vendedor que estava por detrás do vidro, no guichê de vendas. Todas as pessoas que estavam lá tinham 50% de chances de que seus trens não partiriam. A notícia de que o trem seria cancelado era devastadora para alguns. O problema é que estamos na antevéspera de uma paralisação nacional (que aconteceria na terça-feira). Assim, quem não saísse de Paris até o fim da tarde da segunda-feira teria que ficar lá, ao menos, até quarta. Porém, com o cenário de crescentes incertezas, quarta-feira as coisas poderiam estar ainda piores (com paralisações no metrô e falta de combustível para carros e aviões). Como em nosso grupo havia dois idosos, um bebê e a minha irmã que está grávida, fomos aconselhados pelos vendedores de passagem a evitar os trens nos próximos dias e sugeriram que alugássemos um carro para sair de Paris. As estações de trem seriam alvos de acalorados protestos e, caso nosso trem fosse cancelado (e não havia como saber isso com antecedência), teríamos que passar horas na estação até descobrirmos se conseguiríamos ou não lugares no próximo trem.
Sentimos que nossa situação era muito mais complicada do que supúnhamos ao nos dirigirmos para as agências de locação de veículos. Não havia mais carros disponíveis para alugar em Paris! Além disso, caso conseguíssemos alugar um carro, não havia garantia de que conseguiríamos abastecer no caminho de mais de 500 quilômetros até Grenoble. Várias cidades estavam já com seus estoques de combustível no fim, pois os grevistas tinham fechado todas as refinarias de petróleo do país e barravam a circulação de todos os caminhões de combustíveis que vinham de outros países.
Aos poucos fui sentido que Paris era uma enorme ratoeira e que o rato era eu. Fomos atraídos pelo canto da sereia do turismo mundial e agora não sabíamos mais com certeza quando conseguiríamos deixar a cidade.
Nosso único alento vinha dos riscos brancos no céu azul do frio outono de Paris. Ainda poderíamos tentar sair pelo ar. Mas isso também era arriscado, pois 50% dos vôos já haviam sido cancelados. Optamos então pelo trem e deixamos o aeroporto de Orly como nossa última carta na manga.
Compramos as passagens e planejamos ir à estação na manhã de segunda-feira – embora nosso trem fosse sair no início da tarde. Mas, para nosso desespero, não havia taxis disponíveis em Paris, na segunda de manhã. Paris parecia um barco prestes a afundar e todo e qualquer meio de transporte disponível estava rodando nas ruas ou preso na greve. Como nosso grupo carregava muita bagagem (pois viajar com um bebê de um ano e meio demanda muita bagagem) seria praticamente impossível irmos à estação utilizando o metrô. Após mais de trinta minutos aguardando na linha telefônica, finalmente conseguimos taxis para nos levar à estação.
Mas a grande provação seria descobrir se nosso trem partiria ou se seria cancelado. A estação estava lotada e as pessoas, apreensivas, olhavam os grandes letreiros, como que aguardando a notícia que daria rumo a suas vidas.
O silêncio da espera enervante era constantemente quebrado pelos gritos dos grevistas que andavam em passeata pela estação.
Tudo parecia estranhamente surreal, mas nada podia me preparar para o que se seguiu. As bancas de jornal e televisões espalhadas pela estação anunciavam que o serviço secreto havia interceptado uma notícia da Al-Qaeda, dizendo que um ataque terrorista em solo francês era iminente; sendo Paris o principal alvo. Como meus familiares não falavam francês, resolvi não contar a eles sobre essa absurda ameaça, que só aumentaria o grau de estresse ao qual estávamos sujeitos. Caso não conseguíssemos sair de Paris, além de ficar em um mar de incertezas (pois sequer tínhamos reservas em hotéis de Paris para os próximos dias), estávamos em uma cidade que poderia sofrer a qualquer momento um ataque terrorista. Mas não dei muito ouvidos à ameaça terrorista, pois havia rumores de que a divulgação dessas notícias era parte da estratégia do governo para mudar o foco das atenções. Com a eleição se aproximando, a ameaça de um ataque terrorista seria favorável a Sarkozy. Quando as pessoas temem por suas vidas, tendem a adotar posturas mais conservadoras.
Nenhum som foi tão belo quanto o silvo do apito do fiscal da plataforma anunciando a partida de nosso trem.

A estrada de ferro mais nostálgica dos Alpes
Perto de Grenoble, há uma estrada de ferro conhecida como a “estrada de ferro mais charmosa dos Alpes”. Ela sai de St Georges de Commiers e, após uma hora e trinta minutos de subida, chega à cidade de La Mure – que empresta seu nome à linha férrea, hoje reservada ao turismo.
A subida até La Mure é lenta e o sacolejo hipnótico do trem, ao som do constante tuk-tuk das rodas de aço sobre o metal, nos conduz diretamente a um passado distante.
A cidade de La Mure já teve seus dias de gloria, na época em que o carvão mineral era vital à economia da França. A estrada de ferro foi conseqüência da necessidade de uma via fácil para trazer o carvão das minas que circundavam a cidade, cujas montanhas chegam a 1.204 metros de altura. Hoje em dia, a decadência da estrada de ferro, dos trens que fazem o trajeto e da cidade que é o ponto final da linha é palpável. Mas isso não torna a viagem menos interessante.
A grande atração do percurso feito pelo trem La Mure são os lagos de altitude. O maior deles é fruto de uma grande represa. O vale agora inundado pela água verde turquesa complementa a cor do céu azul.
Há também antigas pontes de pedras e as belas paisagens típicas dos Alpes.
A viagem é feita na grande maioria por idosos e por casais jovens com filhos. Há algo fortemente nostálgico no modo como os idosos se portam na viagem, como se nesse trem eles pudessem reviver não só o passado de La Mure, mas as suas próprias vivências.
Algo que os franceses gostam mais que queijo e vinho
A identidade cultural de um país é determinada por aquilo que as pessoas do país mais gostam e sabem fazer de melhor. Dinheiro, nos Estados Unidos, samba e futebol no Brasil, Miss Mundo, na Venezuela – e outras trivialidades como tal. Certamente, ao se falar a palavra “França”, queijos e vinhos vêm à mente. Mas há outra coisa que os Franceses gostam mais que queijos e vinhos e que podemos dizer que define a identidade cultural deste país: Protestar!
As fotos aqui presentes foram tiradas em dois protestos que ocorreram em Grenoble, nos dias 4 e 7 de setembro. O primeiro deles foi contra a política de imigração do governo (com 15 mil participantes – segundo os jornais). A segunda, contrária à lei que será votada para aumentar a idade da aposentadoria de 60 para 62 anos (com a participação de 65 mil pessoas). Essa segunda foi uma paralisação geral, que mobilizou todo o país.
Os protestos aqui têm uma organização impecável e estratificada (e ocorrem chova ou faça sol). O grupo que vai à frente do protesto é formado pelos mais idosos. Há um ar de solenidade, como se o direito a segurar as primeiras bandeiras e faixas fosse algo conquistado, com muitos anos de luta.
Mas além das grandes bandeiras e faixas haviam as pequenas, confeccionadas pelas próprias pessoas, como um sinal de expressão individual.
Ao longo do percurso, frases e canções eram ditas e cantadas em coro pelos participantes. Mas havia carros de som e microfones para aqueles que eram responsáveis por “animar a festa”.
O percurso foi constantemente controlado pela polícia. Embora parecesse surreal o contraste entre os idosos que encabeçavam o protesto e os policiais fortemente armados. O que os velhinhos e velhinhas poderiam fazer? Iniciar um quebra-quebra?
O único momento no qual os ânimos esquentaram foi diante de um prédio, no qual um morador anti-greve (a favor da reforma na previdência) havia colocado algumas bandeiras na sacada, de frente para o percurso do protesto.
Mas o protesto tinha uma dimensão muito maior que a revolta política. Havia uma atmosfera alegre e animada. Guardando as devidas proporções, tudo lembrava um desfile de carnaval, pois tinha até uma escola de samba (que, por incrível que pareça, tocava bem – guardando as devidas proporções).
E aqui também, como aí no Brasil, tudo terminou em churrasco e festa, na praça central da cidade.
O que você espera encontrar nos Alpes, uma praia?
Grenoble fica no centro da Europa. Trens cruzam essa cidade como se fossem as veias que se ligam a um coração. Em poucas horas (no TGV: “train à grande vitesse” (“trem de alta velocidade”)) pode-se chegar a qualquer lugar da França ou dos países fronteiriços (especialmente, na Suíça, Alemanha e Itália). O único problema é o preço do TGV (deveras proibitivo para “filósofos” como eu).
Pegamos o trem (não o TGV, mas um outro mais barato, na 2ª classe) na manhã do dia 26, rumo a Annecy. Nosso objetivo era conhecer o grande lago nos Alpes, que banha essa cidade – tendo em vista aproveitar os últimos dias antes do começo do ano letivo (que se inicia agora em setembro). O trem, britanicamente (embora isso talvez soasse como um insulto aos franceses), partiu na hora exata. Como um marinheiro de primeira viagem, validei na máquina situada na plataforma o tíquete da ida e também o da volta (achei que o tíquete da volta fosse o da minha esposa). O “controlador” do trem, como é o costume das pessoas na região, foi extremamente prestativo e, após eu explicar a “bêtise” (“burrada”) que fiz, ele prontamente resolveu nossa situação e pudemos viajar sossegados.
Em uma hora e quinze já estávamos nos Alpes. Infelizmente, a estação de trem de Annecy não condiz com a cidade e nos deu a impressão de que chegávamos a um lugar não muito hospitaleiro. Procuramos um banheiro por vários minutos na estação, mas todos pareciam estar fechados. A única solução foi comprar um café em um Bistrô e fazer o xixi mais caro da minha vida. (Na volta descobrimos que tinha um (!) banheiro dentro da sala de espera da estação – ao lado das plataformas).
Após alguns minutos de caminhada da estação nos deparamos com o “mar dos Alpes”. Belo, verde, límpido como Fernando de Noronha. Peixes e pássaros nadavam. Algumas pessoas andavam despreocupadas nas margens do lago, outras passeavam de pedalinho, muitas estavam deitadas na relva dos parques voltados para o lago. Uma atmosfera inacreditável – como se estivéssemos em um Oasis no meio do deserto de montanhas dos Alpes. Ali pudemos encontrar a mais sutil conciliação entre a beleza da natureza e a beleza arquitetônica do centro da Velha-Annecy. Alguns dos prédios datavam do século XII, outros, joviais, do século XV, XVII etc.. Os canais que cortavam o centro da Velha-Annecy eram como corrimãos que nos levavam do lago aos bares e restaurantes.
Após percorrer a cidade e pedalar pelas ciclovias que circundam o lago me dei conta de que, embora estivesse nas montanhas, sentia-me como se estivesse na praia. Esse sentimento foi confirmado ao encontrarmos algumas pequenas praias ao redor do lago, onde pudemos nos banhar – embora a areia da praia aqui fosse uma verde relva e o solo do lago formado por pequenos seixos.
Essas são algumas das fotos que pude tirar nas andanças por essa bela região:
Centro da Velha- Annecy (001)
(002)
(003)
Canais próximos ao Lago Annecy (001)
(002)
(003)
(004)
Lago Annecy (001)
(002)
(003)
(004)
Praia no Lago Annecy (001)
(002)
Parque na beira do Lago (001)
(002)
A trilha estreita para o confim
Descobrimos, da maneira mais atlética possível, que não é sem razão a existência de um teleférico, que une o centro da cidade de Grenoble à fortificação da Bastilha (principal atração turística da região). Talvez motivados pela vontade de não nos sentirmos turistas (mas moradores da cidade), resolvemos percorrer à pé os quase 2 quilômetros de trilhas, moro acima, até o mirante, sobre a Bastilha, de onde se avista todo o vale que abriga a cidade de Grenoble (situada entre as montanhas do Vercours e os Alpes).
A trilha começava na beira do Rio Isère – na margem oposta, de onde parte o teleférico (que é o cartão postal da cidade).
Fazia por volta de 30º C e o sol estava no seu ponto máximo (próximo ao meio dia). Mas a vegetação da encosta do morro nos dava abrigo e as trilhas iniciais eram muito agradáveis. Após alguns minutos de caminhada já podíamos avistar os telhados das casas e prédios da cidade.
Há três grandes caminhos que partem do rio Isère até a Bastilha – sendo que cada um desses caminhos é constituído de várias pequenas trilhas. Escolhemos o caminho que, no mapa, nos pareceu ser o maior (na esperança que fosse o mais bem sinalizado). Mas não sabíamos bem ao certo como chegar à Bastilha.
Nos contentávamos em continuar subindo, porém sempre escolhendo a trilha menos íngreme, quando as opções de caminhos diversos se apresentavam. Começamos a sentir a força do sol apenas depois de uns 30 minutos de subida, quando atingimos áreas mais planas, situadas quase na metade do caminho.
As partes de trilhas agora eram intercaladas por escadas que, em muitos dos casos, eram túneis construídos de pedras.
Por sorte, tínhamos levado uma garrafa d’água, pois só encontramos água potável na Bastilha.
Depois de uns 50 minutos de caminhada não havia quase vegetação ao longo da trilha e podíamos já ver o topo da montanha.
Nessa parte encontramos várias fortificações e pudemos descansar na sombra por alguns minutos.
A última parte do trajeto era composto por escadarias e estradas mais largas, que seriam suficientes para um carro.
Ao final de 1 hora e 20 minutos de subida, chegamos no topo. Após nos refrescarmos e beber muita água, pois nossa garrafa já tinha terminado no trecho final, pudemos aproveitar a paisagem.
Uma bela surpresa foi encontrar um pequeno museu de arte contemporânea do topo da Bastilha, com algumas obras muito interessantes. Também foi muito interessante a visita ao museu do soldado montanhês – também na Bastilha.
Ficamos lá no topo da montanha todo o tempo necessário para recobrarmos nossas forças.
Ao subirmos, pensamos que faríamos a descida pelo teleférico – pois, provavelmente, estaríamos cansados demais para retornar andando. Porém, após o passeio na Bastilha estávamos com as forças recobradas e decidimos descer também à pé.
Por sorte, na subida escolhemos o caminho mais longo, mas menos íngreme. Na volta, também por sorte, escolhemos o mais íngreme e curto dos caminhos – composto por longas escadarias.
Em menos de uma hora de descida já estávamos novamente nas margens do rio Isère. Certamente teria sido bastante desagradável, caso tivéssemos optado por subir por essas longas escadas de pedras.
Coisas que aqui são diferentes do Brasil (001)
A cidade de Grenoble é coberta, de ponta a ponta, por uma enorme rede de trens de superfície elétricos, ônibus elétricos e ônibus movidos por gás natural. Porém, não há catracas aqui. Quem quiser pagar o trem, ou o ônibus, deve comprar o ticket de uma máquina automática (ou do motorista do ônibus) e validar o ticket em uma máquina – pagando pela viagem comprada. Além disso, aqui praticamente inexiste fiscalização! Mesmo assim, religiosamente, todos compram e pagam pelas viagens (embora eu tenha visto duas adolescentes que não o fizeram).
Outra coisa bastante diferente aqui, é que vinhos de boa qualidade podem ser comprados por preços que variam entre 2,50 e 3,50 euros. Ou seja: com menos de 8 reais pode-se comprar uma garrafa de vinho que no Brasil custaria por volta de 25 reais (ou mais) . Para que você tenha idéia de como isso é barato, uma lata de coca-cola custa (nos restaurantes) por volta de 3,10 euros – o mesmo preço de uma boa garrafa de vinho no supermercado. Porém, o preço dos refrigerantes não é um problema, pois nos restaurantes todos bebem água de Grenoble (ou seja: da torneira). Certamente há vinhos mais caros. Mas, no supermercado perto de minha casa, o mais caro que encontrei custava 10 euros (23 reais).





































































































